Um ponto de encontro entre internautas cristãos, professores de escola bíblica e pregadores.

POR QUE ROMANOS 9 NÃO AVALIZA A PREDESTINAÇÃO INCONDICIONAL

Por Ciro Zibordi



Pretendo, por meio desta série, demonstrar que Romanos 9 não abona a predestinação incondicional. Mas, antes, responderei a algumas perguntas intrigantes que os calvinistas costumam me fazer.

A primeira pergunta é: “Pastor Ciro, o senhor é arminiano?” E a minha resposta negativa sempre gera outra indagação: “Então, por que se preocupa tanto em refutar o calvinismo?” E emendam um terceiro questionamento: “Se o senhor não é arminiano, por que se vale dos frágeis argumentos arminianos?”

Em primeiro lugar, sempre deixei claro que não me apego a rótulos, ainda que eu não tenha nada contra eles. Eu os valorizo, mas não os priorizo. Por exemplo, nunca escondi de ninguém que sou pentecostal e pastor assembleiano. No entanto, as minhas fontes de autoridade não são a tradição das Assembléias de Deus, a qual eu respeito, e muito, tampouco a minha experiência como pentecostal. A minha fonte primacial de autoridade é a Bíblia. E aqui está um grande problema, posto que calvinistas e arminianos dizem ter o abono das Escrituras para tudo o que afirmam!

A despeito de os ultra-calvinistas continuarem não acreditando em mim, reitero que não sou arminiano nem calvinista. Por quê? Porque não encontro apoio na Bíblia para nenhuma das duas correntes, principalmente para o calvinismo. É claro que o arminianismo — o extremado, é óbvio — supervaloriza a ação humana, em detrimento da graça de Deus. Mas, e o calvinismo? Quer dizer que as suas abordagens exageradas de algumas doutrinas da salvação, como a eleição, a predestinação, a segurança da salvação, etc., não depõem contra a Bíblia?

Por que não sou arminiano? Porque concordo que a salvação se dá exclusivamente pela graça salvadora, e não pelo esforço humano; se bem que isso deve ser entendido à luz das Escrituras, e não mediante teologias “enlatadas”. Não sou arminiano, ainda, porque creio na plena segurança da salvação, em Cristo. Eu disse: “em Cristo”, pois fora de Cristo não há segurança alguma!

Mas, qual é o problema do predestinalismo ou calvinismo extremado? É o determinismo, expresso pela máxima “Uma vez salvo, salvo para sempre”. Nenhum calvinista fanático aceita que o Senhor Jesus tenha morrido por toda a humanidade, tampouco admite que a aceitação da graça se dá mediante o livre-arbítrio. Para um predestinalista, somente os eleitos antes da fundação do mundo estão, por decreto, definitivamente salvos, haja o que houver. E eles pensam ter toda a Bíblia a seu favor. É como se Deus fosse calvinista!

Preocupo-me com o apego dos predestinalistas a passagens isoladas, as quais, fora do contexto, de fato sugerem que Deus tenha eleito uns para a perdição e outros para a salvação. Um desses textos é Romanos 9. Confesso que, se este capítulo pudesse ser extraído de seu contexto, ignorando-se todas as outras verdades das Escrituras, eu já teria me tornado um predestinalista, sem nenhuma dúvida. E poderia dizer como certos internautas: “Eu sou um assembleiano calvinista”...

O problema é que o texto de Romanos 9 — como outras passagens usadas em prol do predestinalismo — está inserido em um contexto imediato (a Epístola de Romanos) e em um contexto geral ou remoto (toda a Bíblia). E certos irmãos em Cristo, desconhecedores de algumas doutrinas da salvação, depois de convencidos de que o calvinismo é verdadeiro, passam a ver todos os outros textos bíblicos sob a ótica predestinalista, o que lhes impede de conhecer a pura verdade do evangelho acerca da salvação em Cristo Jesus. O meu objetivo, portanto, é mostrar que a Bíblia, e somente ela, tem as respostas quanto às doutrinas da salvação.
Começarei esta análise de Romanos 9 pelo versículo 16, haja vista sugerir que não existe o livre-arbítrio: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadesse”. E, para um bom calvinista, esse versículo é o suficiente para refutar a idéia da participação da livre-vontade humana no que tange à salvação.

Mas é preciso observar que o apóstolo Paulo não se refere ao meio pelo qual se recebe a salvação, e sim à fonte da salvação. A ênfase de que a salvação não depende do que quer, mas do compassivo Deus, não deve ser usada fora de contexto, com a finalidade de descartar a livre-vontade humana, necessária para o recebimento da salvação, segundo a Bíblia (Jo 1.12; 3.16; Rm 10.9,10; Ef 2.8-10).

Se tomarmos como base outros textos neotestamentários, veremos que, conquanto a graça de Deus seja a fonte da salvação, o ser humano pode rejeitar essa dádiva divina (2 Pe 3.9; At 7.51; Rm 9.22). Por outro lado, segundo os predestinalistas, os versículos 21 e 22 do capítulo em análise desferem um golpe mortal contra o livre-arbítrio: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou os vasos da ira, preparados para perdição”.

OS VASOS DA IRA

Bem, quando a Palavra de Deus menciona a analogia dos vasos, a ênfase é para o fato de que, de acordo com a nossa resposta moral a Deus (cf. 2 Tm 2.20,21), o vaso poderá ser moldado ou desfeito nas mãos do Oleiro, como foi o caso de Israel (Os 8.8, ARC). Quem lê atentamente Jeremias 18 sabe que o Senhor não ignora o livre-arbítrio. Ele mesmo disse, depois de apresentar a Jeremias uma analogia sobre um vaso que se quebrou na mão do oleiro: “Se a tal nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe” (v.8).

À luz do contexto geral da Bíblia, vasos da ira são os pecadores que recebem a ira de Deus após terem permanecido no pecado. Da mesma forma, os vasos de misericórdia são os pecadores que recebem a misericórdia de Deus (Rm 9.23), ao crerem no evangelho de Cristo, que é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Os vasos da ira são objetos da ira divina porque se recusam a se arrepender. Daí o fato de Deus suportá-los com longanimidade (Rm 9.22), isto é, esperar pacientemente por seu arrependimento (2 Pe 3.9).

É claro que o argumento acima não convence uma mente predestinalista. Por quê? Porque, como está escrito em Romanos 9.22 que os tais vasos da ira foram preparados para a destruição (ou perdição), os calvinistas continuarão acreditando que a tal preparação para a perdição se deu antes da fundação do mundo. E, para advogar essa idéia, valem-se do próprio capítulo em apreço, pelo qual se afirma, segundo eles, que Jacó e Esaú já nasceram preparados para o que fariam no mundo. Será?

A ELEIÇÃO DE JACÓ E ESAÚ

Os versículos 11 a 13 de Romanos 9 parecem mesmo apoiar o fatalismo calvinista, pelo qual se propaga a eleição arbitrária de indivíduos para salvação e perdição, antes da fundação do mundo. Afinal, o texto diz que Deus amou Jacó e aborreceu (odiou, rejeitou) Esaú. Parece mesmo não haver dúvidas de que o Senhor somente ama os eleitos, além de odiar os não-eleitos. Mas, como eu já disse, não podemos desprezar o contexto imediato, tampouco a analogia geral da Bíblia.

Creio que alguns predestinalistas desdenharão deste artigo, dizendo: “Pobre arminiano” (leiam a primeira parte desta série). Mas não tenho dúvidas do quanto o texto em apreço tem sofrido na mão do calvinismo extremado. Primeiro, porque o apóstolo Paulo não está falando de indivíduos! Jacó (Israel) e Esaú (Edom) representam duas nações! Basta lermos com atenção Gênesis 25.23 para chegarmos a essa conclusão: “E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor”.

Não há, pois, apoio a uma eleição individual, e sim a uma eleição de povos e nações: Israel e Edom. O que houve antes de os gêmeos nascerem foi uma eleição corporativa, e não individual. A passagem em análise não diz que Deus odiou a pessoa de Esaú antes que ela tivesse nascido, nem que Ele amou a pessoa de Jacó antes de este ter vindo ao mundo! Prova disso é que o apóstolo Paulo não citou Gênesis 25.23, diretamente, e sim Malaquias 1.2,3, que alude aos povos israelita e edomita.

Segue-se que a frase “aborreci Esaú” não é uma menção à rejeição do homem Esaú, e sim à rejeição do povo edomita, em razão de seus terríveis pecados, como se lê em Números 20 e Obadias. Mas isso não significa que todos os edomitas estejam, de antemão, condenados em razão de pertecerem à nação de Edom (cf. Am 9.12). A Palavra de Deus afirma que os indivíduos de cada nação podem ser salvos (Ap 7.9). Não era Rute uma moabita, pertencente a um povo rejeitado por Deus?

É um erro, por conseguinte, acreditar que o texto de Romanos 9 alude à eleição de indivíduos. Paulo se refere à eleição do povo de Israel. E, por isso, no capítulo seguinte está escrito: “Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para a sua salvação” (v.1). O que a Palavra de Deus ensina em Romanos (toda a epístola) é o que se vê em toda a Bíblia. Deus elegeu um povo como nação sacerdotal, Israel (Êx 19.5,6), mas cada indivíduo tem de aceitar a graça de Deus pela fé, a fim de que seja salvo (Rm 11.20). E isso também se aplica à Igreja, geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido (1 Pe 2.9,10).

Outrossim, o ódio de Deus a Esaú (Edom) precisa ser entendido de acordo com o sentido original da palavra usada para “odiei” (ou “rejeitei”). No hebraico, significa “amar menos” e é o mesmo termo aplicado ao sentimento de Jacó por Léia, inferior ao que nutria por Raquel. Ele amava muito esta e “desprezava” aquela (Gn 29.30,31). O sentimento de Jacó por Léia não era de ódio, como que querendo vê-la sofrer. Na verdade, ele até teve filhos com ela! Mas Raquel era a sua preferida.

No Novo Testamento o aludido hebraísmo também ocorre em Lucas 14.26, texto pelo qual aprendemos que, para seguirmos ao Senhor Jesus, amando-o acima de tudo, devemos amar menos (ou “aborrecer”) a nossa família (Mt 10.37).

O ENDURECIMENTO DE FARAÓ

Nos versículos 14 e 15 do capítulo em apreço está escrito: “Que diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. A citação de Paulo refere-se ao endurecimento de Faraó (Êx 7.3,4). Mas é importante enfatizar que não foi Deus quem primeiro endureceu o coração de Faraó (Êx 7.13,14,22). Este se obstinou em seu coração (Êx 8.15), o qual permaneceu endurecido e obstinado, mesmo ante as pragas enviadas por Deus (Êx 8.19,32; 9.7,34,35).

Não foi o Senhor quem fez questão de endurecer Faraó, anulando-lhe a livre-vontade. Ele apenas confirmou o que o próprio Faraó desejava fazer (Êx 9.12; 10.1,20,27). Isso se conforma ao que está escrito em Romanos 1.21 acerca da depravação dos gentios: “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu”. Mais adiante, em razão desse endurecimento, está escrito: “Pelo que Deus os abandonou às paixões infames... E, como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” (vv.26-28).

Voltando ao endurecimento do coração de Faraó, fica claro pelo estudo contextual das Escrituras que o tal endurecimento, em definitivo, se deu em razão de ele ter se firmado cada vez mais em seu pecado, a cada praga enviada ao Egito. É como está escrito em Provérbios 29.1: “O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura”. Não foi, portanto, Deus quem endureceu Faraó, pois este escolheu agir assim, mesmo ante as repreensões do Senhor.

Ademais, o termo hebraico usado para “endurecer” denota “fortalecer”, isto é, Deus apenas “fortaleceu” o desejo que estava no coração de Faraó. Não foi Ele quem desejou que Faraó fosse obstinado, mas apenas o abandonou às suas paixões infames e o entregou a um sentimento perverso, que já havia em seu coração (Êx 8.15), posto que ele não se importou em ter conhecimento de Deus (Jo 12.37-50). No mesmo livro de Romanos (contexto imediato), o apóstolo Paulo faz menção a essa dureza de coração ocasionada pelo próprio pecador, e não por Deus: “... segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (2.5).

Portanto, o texto de Romanos 9 de maneira alguma avaliza a predestinação incondicional de certas pessoas ao Inferno eterno, à parte do próprio livre-arbítrio delas. E isso também não significa que a salvação seja mediante obras. É claro que o ser humano, por si mesmo, nada pode fazer para salvar-se. Mas é inegável o fato de o Senhor ter dotado o homem de intelecto, sentimento e vontade, a fim de que ele receba ou não, pelo livre-arbítrio, a salvação. Afinal, “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação...?” (Hb 2.3).
Pretendo, por meio desta série, demonstrar que Romanos 9 não abona a predestinação incondicional. Mas, antes, responderei a algumas perguntas intrigantes que os calvinistas costumam me fazer.

A primeira pergunta é: “Pastor Ciro, o senhor é arminiano?” E a minha resposta negativa sempre gera outra indagação: “Então, por que se preocupa tanto em refutar o calvinismo?” E emendam um terceiro questionamento: “Se o senhor não é arminiano, por que se vale dos frágeis argumentos arminianos?”

Em primeiro lugar, sempre deixei claro que não me apego a rótulos, ainda que eu não tenha nada contra eles. Eu os valorizo, mas não os priorizo. Por exemplo, nunca escondi de ninguém que sou pentecostal e pastor assembleiano. No entanto, as minhas fontes de autoridade não são a tradição das Assembléias de Deus, a qual eu respeito, e muito, tampouco a minha experiência como pentecostal. A minha fonte primacial de autoridade é a Bíblia. E aqui está um grande problema, posto que calvinistas e arminianos dizem ter o abono das Escrituras para tudo o que afirmam!

A despeito de os ultra-calvinistas continuarem não acreditando em mim, reitero que não sou arminiano nem calvinista. Por quê? Porque não encontro apoio na Bíblia para nenhuma das duas correntes, principalmente para o calvinismo. É claro que o arminianismo — o extremado, é óbvio — supervaloriza a ação humana, em detrimento da graça de Deus. Mas, e o calvinismo? Quer dizer que as suas abordagens exageradas de algumas doutrinas da salvação, como a eleição, a predestinação, a segurança da salvação, etc., não depõem contra a Bíblia?

Por que não sou arminiano? Porque concordo que a salvação se dá exclusivamente pela graça salvadora, e não pelo esforço humano; se bem que isso deve ser entendido à luz das Escrituras, e não mediante teologias “enlatadas”. Não sou arminiano, ainda, porque creio na plena segurança da salvação, em Cristo. Eu disse: “em Cristo”, pois fora de Cristo não há segurança alguma!

Mas, qual é o problema do predestinalismo ou calvinismo extremado? É o determinismo, expresso pela máxima “Uma vez salvo, salvo para sempre”. Nenhum calvinista fanático aceita que o Senhor Jesus tenha morrido por toda a humanidade, tampouco admite que a aceitação da graça se dá mediante o livre-arbítrio. Para um predestinalista, somente os eleitos antes da fundação do mundo estão, por decreto, definitivamente salvos, haja o que houver. E eles pensam ter toda a Bíblia a seu favor. É como se Deus fosse calvinista!

Preocupo-me com o apego dos predestinalistas a passagens isoladas, as quais, fora do contexto, de fato sugerem que Deus tenha eleito uns para a perdição e outros para a salvação. Um desses textos é Romanos 9. Confesso que, se este capítulo pudesse ser extraído de seu contexto, ignorando-se todas as outras verdades das Escrituras, eu já teria me tornado um predestinalista, sem nenhuma dúvida. E poderia dizer como certos internautas: “Eu sou um assembleiano calvinista”...

O problema é que o texto de Romanos 9 — como outras passagens usadas em prol do predestinalismo — está inserido em um contexto imediato (a Epístola de Romanos) e em um contexto geral ou remoto (toda a Bíblia). E certos irmãos em Cristo, desconhecedores de algumas doutrinas da salvação, depois de convencidos de que o calvinismo é verdadeiro, passam a ver todos os outros textos bíblicos sob a ótica predestinalista, o que lhes impede de conhecer a pura verdade do evangelho acerca da salvação em Cristo Jesus. O meu objetivo, portanto, é mostrar que a Bíblia, e somente ela, tem as respostas quanto às doutrinas da salvação.
Começarei esta análise de Romanos 9 pelo versículo 16, haja vista sugerir que não existe o livre-arbítrio: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadesse”. E, para um bom calvinista, esse versículo é o suficiente para refutar a idéia da participação da livre-vontade humana no que tange à salvação.

Mas é preciso observar que o apóstolo Paulo não se refere ao meio pelo qual se recebe a salvação, e sim à fonte da salvação. A ênfase de que a salvação não depende do que quer, mas do compassivo Deus, não deve ser usada fora de contexto, com a finalidade de descartar a livre-vontade humana, necessária para o recebimento da salvação, segundo a Bíblia (Jo 1.12; 3.16; Rm 10.9,10; Ef 2.8-10).

Se tomarmos como base outros textos neotestamentários, veremos que, conquanto a graça de Deus seja a fonte da salvação, o ser humano pode rejeitar essa dádiva divina (2 Pe 3.9; At 7.51; Rm 9.22). Por outro lado, segundo os predestinalistas, os versículos 21 e 22 do capítulo em análise desferem um golpe mortal contra o livre-arbítrio: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou os vasos da ira, preparados para perdição”.

OS VASOS DA IRA

Bem, quando a Palavra de Deus menciona a analogia dos vasos, a ênfase é para o fato de que, de acordo com a nossa resposta moral a Deus (cf. 2 Tm 2.20,21), o vaso poderá ser moldado ou desfeito nas mãos do Oleiro, como foi o caso de Israel (Os 8.8, ARC). Quem lê atentamente Jeremias 18 sabe que o Senhor não ignora o livre-arbítrio. Ele mesmo disse, depois de apresentar a Jeremias uma analogia sobre um vaso que se quebrou na mão do oleiro: “Se a tal nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe” (v.8).

À luz do contexto geral da Bíblia, vasos da ira são os pecadores que recebem a ira de Deus após terem permanecido no pecado. Da mesma forma, os vasos de misericórdia são os pecadores que recebem a misericórdia de Deus (Rm 9.23), ao crerem no evangelho de Cristo, que é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Os vasos da ira são objetos da ira divina porque se recusam a se arrepender. Daí o fato de Deus suportá-los com longanimidade (Rm 9.22), isto é, esperar pacientemente por seu arrependimento (2 Pe 3.9).

É claro que o argumento acima não convence uma mente predestinalista. Por quê? Porque, como está escrito em Romanos 9.22 que os tais vasos da ira foram preparados para a destruição (ou perdição), os calvinistas continuarão acreditando que a tal preparação para a perdição se deu antes da fundação do mundo. E, para advogar essa idéia, valem-se do próprio capítulo em apreço, pelo qual se afirma, segundo eles, que Jacó e Esaú já nasceram preparados para o que fariam no mundo. Será?

A ELEIÇÃO DE JACÓ E ESAÚ

Os versículos 11 a 13 de Romanos 9 parecem mesmo apoiar o fatalismo calvinista, pelo qual se propaga a eleição arbitrária de indivíduos para salvação e perdição, antes da fundação do mundo. Afinal, o texto diz que Deus amou Jacó e aborreceu (odiou, rejeitou) Esaú. Parece mesmo não haver dúvidas de que o Senhor somente ama os eleitos, além de odiar os não-eleitos. Mas, como eu já disse, não podemos desprezar o contexto imediato, tampouco a analogia geral da Bíblia.

Creio que alguns predestinalistas desdenharão deste artigo, dizendo: “Pobre arminiano” (leiam a primeira parte desta série). Mas não tenho dúvidas do quanto o texto em apreço tem sofrido na mão do calvinismo extremado. Primeiro, porque o apóstolo Paulo não está falando de indivíduos! Jacó (Israel) e Esaú (Edom) representam duas nações! Basta lermos com atenção Gênesis 25.23 para chegarmos a essa conclusão: “E o Senhor lhe disse: Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor”.

Não há, pois, apoio a uma eleição individual, e sim a uma eleição de povos e nações: Israel e Edom. O que houve antes de os gêmeos nascerem foi uma eleição corporativa, e não individual. A passagem em análise não diz que Deus odiou a pessoa de Esaú antes que ela tivesse nascido, nem que Ele amou a pessoa de Jacó antes de este ter vindo ao mundo! Prova disso é que o apóstolo Paulo não citou Gênesis 25.23, diretamente, e sim Malaquias 1.2,3, que alude aos povos israelita e edomita.

Segue-se que a frase “aborreci Esaú” não é uma menção à rejeição do homem Esaú, e sim à rejeição do povo edomita, em razão de seus terríveis pecados, como se lê em Números 20 e Obadias. Mas isso não significa que todos os edomitas estejam, de antemão, condenados em razão de pertecerem à nação de Edom (cf. Am 9.12). A Palavra de Deus afirma que os indivíduos de cada nação podem ser salvos (Ap 7.9). Não era Rute uma moabita, pertencente a um povo rejeitado por Deus?

É um erro, por conseguinte, acreditar que o texto de Romanos 9 alude à eleição de indivíduos. Paulo se refere à eleição do povo de Israel. E, por isso, no capítulo seguinte está escrito: “Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para a sua salvação” (v.1). O que a Palavra de Deus ensina em Romanos (toda a epístola) é o que se vê em toda a Bíblia. Deus elegeu um povo como nação sacerdotal, Israel (Êx 19.5,6), mas cada indivíduo tem de aceitar a graça de Deus pela fé, a fim de que seja salvo (Rm 11.20). E isso também se aplica à Igreja, geração eleita, sacerdócio real, nação santa e povo adquirido (1 Pe 2.9,10).

Outrossim, o ódio de Deus a Esaú (Edom) precisa ser entendido de acordo com o sentido original da palavra usada para “odiei” (ou “rejeitei”). No hebraico, significa “amar menos” e é o mesmo termo aplicado ao sentimento de Jacó por Léia, inferior ao que nutria por Raquel. Ele amava muito esta e “desprezava” aquela (Gn 29.30,31). O sentimento de Jacó por Léia não era de ódio, como que querendo vê-la sofrer. Na verdade, ele até teve filhos com ela! Mas Raquel era a sua preferida.

No Novo Testamento o aludido hebraísmo também ocorre em Lucas 14.26, texto pelo qual aprendemos que, para seguirmos ao Senhor Jesus, amando-o acima de tudo, devemos amar menos (ou “aborrecer”) a nossa família (Mt 10.37).

O ENDURECIMENTO DE FARAÓ

Nos versículos 14 e 15 do capítulo em apreço está escrito: “Que diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”. A citação de Paulo refere-se ao endurecimento de Faraó (Êx 7.3,4). Mas é importante enfatizar que não foi Deus quem primeiro endureceu o coração de Faraó (Êx 7.13,14,22). Este se obstinou em seu coração (Êx 8.15), o qual permaneceu endurecido e obstinado, mesmo ante as pragas enviadas por Deus (Êx 8.19,32; 9.7,34,35).

Não foi o Senhor quem fez questão de endurecer Faraó, anulando-lhe a livre-vontade. Ele apenas confirmou o que o próprio Faraó desejava fazer (Êx 9.12; 10.1,20,27). Isso se conforma ao que está escrito em Romanos 1.21 acerca da depravação dos gentios: “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu”. Mais adiante, em razão desse endurecimento, está escrito: “Pelo que Deus os abandonou às paixões infames... E, como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” (vv.26-28).

Voltando ao endurecimento do coração de Faraó, fica claro pelo estudo contextual das Escrituras que o tal endurecimento, em definitivo, se deu em razão de ele ter se firmado cada vez mais em seu pecado, a cada praga enviada ao Egito. É como está escrito em Provérbios 29.1: “O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz, será quebrantado de repente sem que haja cura”. Não foi, portanto, Deus quem endureceu Faraó, pois este escolheu agir assim, mesmo ante as repreensões do Senhor.

Ademais, o termo hebraico usado para “endurecer” denota “fortalecer”, isto é, Deus apenas “fortaleceu” o desejo que estava no coração de Faraó. Não foi Ele quem desejou que Faraó fosse obstinado, mas apenas o abandonou às suas paixões infames e o entregou a um sentimento perverso, que já havia em seu coração (Êx 8.15), posto que ele não se importou em ter conhecimento de Deus (Jo 12.37-50). No mesmo livro de Romanos (contexto imediato), o apóstolo Paulo faz menção a essa dureza de coração ocasionada pelo próprio pecador, e não por Deus: “... segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (2.5).

Portanto, o texto de Romanos 9 de maneira alguma avaliza a predestinação incondicional de certas pessoas ao Inferno eterno, à parte do próprio livre-arbítrio delas. E isso também não significa que a salvação seja mediante obras. É claro que o ser humano, por si mesmo, nada pode fazer para salvar-se. Mas é inegável o fato de o Senhor ter dotado o homem de intelecto, sentimento e vontade, a fim de que ele receba ou não, pelo livre-arbítrio, a salvação. Afinal, “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação...?” (Hb 2.3).





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