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CESSOU O DOM DE PROFECIA? CALVINISTAS RESPONDEM

Por Tiago Rosas


Vejamos de modo sucinto o posicionamento de cinco destacados teólogos do Calvinismo, sobre o dom de profecia, e que favorecem a posição continuísta, começando pelo próprio João Calvino, em seguida, D.A. Carson, Samuel Storms (citando inclusive Charles Spurgeon), Russel Shedd, e por último Martyn Lloyd Jones.

João Calvino (1) acreditava na possibilidade da existência de profetas em seu tempo: "São Paulo chama profetas, não a todos os que em geral declaram a vontade de Deus, mas aos que recebiam alguma revelação particular (Ef 2.20; 4.11). Destes, em nosso tempo nenhum há, ou são menos manifestos". De fato, quando estudamos a história da igreja vemos, ainda que menos manifestos, homens a quem Deus usou tremendamente com dom de profecia. Veja-se por exemplo João Huss que profetizou, em meio a seu martírio, que cem anos depois dele Deus ergueria uma “cisne” a quem a fúria do catolicismo romano não poderia matar. Isto foi profetizado em 1415, e cem anos depois dele, cumpriu-se sua predição com Martinho Lutero, a quem os romanos não puderam matar, e que explodiu a Reforma Protestante no mundo! O próprio Lutero tinha consciência de que aquela predição lhe dizia respeito: “São João Huss profetizou de mim… ‘Assarão um ganso agora (porque “Huss” significa “ganso”), mas em cem anos ouvirão ouvirão um cisne cantar e terão que aguentá-lo’. E assim será, se Deus quiser” (Luther's Works, vol. 34, p. 103). Outros casos de profecias revelacionais e preditivas poderiam ser citados antes do século 17, mas esta é suficiente por hora (adquira e leia Sob os Céus da Escócia: uma análise das profecias dos puritanos escoceses no século 17, de Renato Cunha, editora CPAD. Super indico!).

Às vezes, os reformadores referem-se ao dom de profecia como sendo capacidade para instruir ou doutrinar. Na verdade, essa concepção equivocada já caducou! Como muito bem ressalta o teólogo D.A.Carson (2), fazendo distinção entre ensino e profecia: "a pregação não pode ser identificada com a profecia". Uma coisa é pregar, outra coisa bem distinta é profetizar. Sam Storms (3) explica: "Uma definição simples de profecia seria 'o relato humano de uma revelação divina'. Profetizar é falar algo que Deus trouxe espontaneamente à sua mente usando meras palavras humanas (...) Isso é o que faz a distinção entre profecia e ensino. O ensino sempre se apoia em um texto da Bíblia. A profecia sempre se fundamenta numa revelação espontânea".

Revelações pontuais dadas subitamente sobre coisas ou pessoas eram recorrentes no ministério do pregador inglês Charles Haddon Spurgeon (4). Ele mesmo conta em sua autobiografia as muitas vezes em que no meio do sermão apontava o dedo na direção do público e falava coisas íntimas, confidenciais, não conhecidas antes, sobre as pessoas, de tal modo que muitas delas diziam a outros: ‘Venham ver um homem que me disse todas as coisas que já fiz; sem dúvida, ele só poderia ter sido enviado por Deus à minha alma, ou não poderia ter descrito com tanta exatidão’. Spurgeon não só fazia a exposição do texto bíblico, mas profetizava coisas íntimas e secretas sobre seus ouvintes conforme revelação divina.
O Dr. Russel Shedd (5) instrui-nos sobre a relação entre o dom de profecia e a revelação pontual dada por Deus a fim de trazer alguma orientação específica ao seu povo. A partir de uma abordagem do dom de profecia na igreja de Corinto, Shedd nos diz:

“As revelações recebidas pelos profetas faziam parte regular dos cultos de Corinto (1Co 14.26). Não acredito que elas seriam fontes de novas doutrinas ou práticas inovadoras, mas eram meios pelos quais os membros da igreja poderiam receber orientações de Deus. Para tomar decisões, ‘revelações’ providenciaram uma base para conhecer a vontade de Deus (...) Revelação não se refere a acréscimo às sagradas letras. A Bíblia era inspirada e há muito tempo canonizada (conf. 2Tm 3,14-16)”

E para deixar claro que, segundo este autor, o dom de profecia com caráter revelacional não foi sepultado com o último dos apóstolos, ele prossegue dizendo que: “Em ocasiões de avivamento, não raro, revelações dessa natureza, isto é, sem nenhuma pretensão de valor universal, chegam à igreja por meio de profetas. Paulo adverte os tessalonicenses nesse sentido, quando disse: ‘Não apaguem o Espírito. Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham a prova todas as coisas e fiquem com o que é bom’ (1Ts 5.19-21, NVI)”.

Logo em seguida, o Dr. Shedd começa a citar alguns exemplos da ocorrência dessas revelações sobrenaturais e dom de profecia nalguns avivamentos pelo mundo, como os ocorridos na China e na Romênia. Vale o leitor conferir para fortalecimento de sua fé!

Na verdade, as profecias nunca cessaram na Igreja de Cristo, mesmo que ela tenha ocorrido sem levar esta nomenclatura. Calvino estava certo. Talvez em seu tempo os profetas que recebiam alguma revelação particular estivessem "menos manifestos", ou menos evidentes; mas de modo algum extintos. E talvez até, como afirma Martyn Lloyd-Jones (6) o dom de profecia por alguma razão tivesse sido detido naquele tempo, mas não cessado. São palavras do velho pregador puritano, ressaltando a soberania divina na concessão dos dons: "às vezes, o Espírito pode querer que nenhum dom seja dado ou que seja notoriamente visível". Mas Lloyd-Jones mesmo acreditava na contemporaneidade do dom de profecia, quando cita, por exemplo, John Welsh e Alexander Peden, homens de quem, segundo Lloyd-Jones, deveríamos ler suas biografias e ver que "eles puderam proferir profecias de eventos que aconteceriam na Escócia - e de fato aconteceram".

Com a piedade que lhe é inerente, o pregador galês Martyn Lloyd-Jones adverte os que flertam com o cessacionismo:
"Acho risível certas pessoas dizerem que não veem nenhuma evidência dos dons hoje em dia. (...) teríamos o direito de argumentar no sentido de que, se alguns desses dons têm estado em evidência durante o transcurso da história da Igreja e ainda estão, por que negar que se dá o mesmo com os demais? (...) a não ser que você tenha prova absoluta, ou possa citar uma declaração especificamente explícita de que foi propósito que os dons fossem apenas temporários e num dado ponto haveriam de ser retirados, tenha todo o cuidado de não estar extinguindo o Espírito quando você firmar suas normas"

Como ficou exposto acima, alguns dos maiores expoentes do calvinismo no mundo, a partir do próprio Calvino, criam na contemporaneidade dos profetas e das profecias, ainda que reconhecendo a menor expressão deles nalguns recortes de tempo da história. E não estão errados, pois as profecias são promessas de Deus para os "últimos dias", em que derramaria seu Espírito com dons sobre toda carne (Joel 2.28,29). E como ratificou Pedro em Pentecostes: "esta promessa é para vós, vossos filhos, os que estão longe, a todos quantos o Senhor Deus chamar" (Atos 2.39).
 "Pois vocês todos podem profetizar" - Paulo (1Co 14.31).

Tiago Rosas
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(1) CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, vol. 4, cap. 3, seç.4.
(2) CARSON, D.A. A manifestação do Espírito, a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12 - 14, p. 171, Vida Nova. (3) STORMS, Sam. Dons Espirituais, pp. 104,109, Anno Domini.
(4) SPURGEON, The Autobriography of Charles H.Spurgeon, vol. 2, pp. 226-227, Curts & Jennings, 1899).
(5) SHEDD, Russel. Avivamento e renovação: em busca do poder transformador de Deus, pp. 85-88, Shedd Publicações.

(6) LLOYD-JONES, Martyn. O comportamento cristão, exposição sobre o cap. 12 de Romanos, pp. 279-283, PES.
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